Paulo Rodarte

Homens de sunga nos olhos

Bem dizia Sartre: “O inferno é o outro”.

De fato.

Num pedaço de chão ermo, onde pouca gente aprecia passar, quase um fim de caminho, vivem felizes vacas, galinhas, cães, cavalos e uma cria marrom, com uma estrelinha na testa, muitos bichos domésticos, outros por amansar. Quando por ali passo, pensando em descansar, vem me receber outro tipo de bicho. Da mesma espécie da minha. Ele tem pernas, duas. Uma cabeça feita para pensar. Cheia de células cinzas, feitas para racionar. Ele tem tudo para ser igual a mim. Só que sua vida é sofrida, imersa em carrilhões de problemas, como os tenho na cidade. Com uma singela diferença: aqui, nesse aglomerado de gente, muitas cabeças pensantes, muitas mãos em quem deveríamos confiar, não é bem assim que acontece. Tanto aqui quanto lá.

Quando chego à minha roça, e vejo as vacas pastando, galinhas ciscando, cavalos correndo, o verde me dando boas vindas, logo penso ter chegado ao paraíso. Logo concluo, por uma casualidade, quando percebo que o sujeito, do meu jeito, aparentado perto, se ausentou por ter bebido mais que a medida, se é que existe medida para bebedeira, as vacas famintas esperam a comida no cocho, as galinhas pedem socorro aos pintinhos, os porcos clamam da falta de milho e de água fresquinha, aí, nesse minuto exato, penso, repenso, e imagino, de repente: como fazer para ficar livre de gente como eu? Como seria extremamente apetitoso ensinar vacas a cuidarem delas mesmas. Galinhas, com sua inteligência do tamanho de um grão de arroz, aprenderem a limpar o galinheiro. E os porcos, mesmo reféns da falta de higiene, mantivessem a casa cheirando a perfume de gardênia.

Mas, infelizmente, não chegamos a esse estágio de desenvolvimento especial. Somos dependentes de nós mesmos. Embora, contrafeito, como acentuei no parágrafo de dantes.

Precisamos de um rio de águas transparentes que têm a capacidade de levar embora as preocupações que não precisamos mais ou águas que reflitam o nosso interior. Ou, segundo outra linha de pensar, guardada na biblioteca da alma, naquele armário onde se esconde o amor sem gaiola, já que somos completamente ligados a outros iguais a nós, ninguém é uma ilha, por que não tiramos a venda dos olhos, no lugar de venda por que não sunga, muitos homens não sabem a diferença entre sunga e calção, short ou equivalente, mas fazem questão de mostrar a importância do cargo que ocupam, pensam ser os donos da razão.

Sunga, conforme apurei, trata-se de um calção próprio para banho e natação. Tipo de cueca muito curta, semelhante ao calção de banho. Espécie de suspensório para os órgãos sexuais masculinos. O verbo sungar existe: quer dizer – puxar para cima.

Voltando às vacas quentes, durantes os dias de visita à minha roça prejuizenta, ao constatar que se precisa de gente com os mesmos defeitos nosso para tocar a coisa, voltei a ideia sobre a sunga nos olhos.

Adoro um clube de esporte perto da casa dos meus pais.

É para lá que vou, fim de expediente, quando o trabalho cansa, para me descansar, seja nas águas tépidas da piscina azul, seja na academia de gente de cabeça arejada, seja nas quadras de tênis que me olham, lá de baixo, com olhos cheios de saudade do meu passado.

Raramente passo pela sauna. Um ambiente esfumaçado, quente, onde pessoas, que mal se enxergam, só se percebem vultos na sauna úmida, ou meio nublado no outro ambiente, proseiam sobre assuntos pertinentes ou não.

Foi ontem que aconteceu o equivalente a quando dou uma chegada à minha roça onde o retireiro Dé briga com a mulher, enche os cornos de canjibrina, e o pau rola forte na cabeça de quem passar perto.

Um homem, administrador competente, provado no manche daquele simpático clube, ao me ver entrar no forno com um calção escuro, para mim e para os outros propriamente denominado de sunga, aliás muito mais comportado e higiênico, feito de lycra colante, ótimo tanto para correr e nadar, me avisou, entre outros frequentadores, amigos leitores, que não poderia estar ali daquele jeito.

Tentei convencer ao mesmo que a sunga era tal e qual as outras. Mas ele, irado, mostrando notável autoridade, presidente atuante, me convidou a sair do lugar.

Nada de ter sucesso na empreitada de convencer o sujeito que a sunga servia. Saí de fininho, envergonhado, como quando minha querida mãe puxava as minhas orelhas e me deixava de castigo num caminhão de bagos de milho.

Bem depois, ainda sob o impacto do choque, eletrizado, foi que pensei nos homens de sunga nos olhos…

Bem disse Sartre: “O inferno é o outro”.

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